EXCLUSIVO (Parte 2)Caso Fernandinho Beira-Mar: Parceiros do bandido tinham depósito de armas dentro da prisão em Vila Velha

Assim que tomou conhecimento do plano dos traficantes Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, e José Antônio Marim, o Toninho Pavão, de matarem três autoridades capixabas, o governo do Estado agiu com firmeza.

O secretário de Estado da Justiça, Ângelo Rocalli Ramos Barros, enviou à Penitenciária de Catanduvas, no Paraná, uma equipe de Inteligência.

Os agentes puderam ter contato mais próximo com os presidiários e descobriram outros planos que o crime organizado tencionava impor no Espírito Santo.

Descobriram que a Casa de Passagem (Antiga Casa de Detenção) da Glória, em Vila Velha, havia se tornado um verdadeiro depósito de armas de guerra e munição.

Uma das primeiras providências dos agentes da Sejus, em Catanduvas, foi a de pedir à direção do presídio que separasse os presos capixabas e não deixasse que eles mantivessem mais contato com bandidos cariocas, principalmente Fernandinho Carioca. Todos foram isolados e colocados em galerias diferentes.

Ouvindo depoimento de presos em Catanduvas, os agentes descobriram que armamento pesado – como metralhadoras, fuzis HK e R15, além de granadas – encontrava-se na Casa de Passagem e em morros da Grande Vitória.

O armamento iria servir, segundo a apuração do governo do Estado, para dar apoio em assaltos de forma em geral, proteção aos pontos de venda de drogas e apoio em supostas tentativas de resgate de presos de unidades prisionais.

Naquela data – início de janeiro de 2007, quando os agentes da Sejus retornaram a Vitória –, o governo registrava a marca de sete meses sem que ocorressem fugas nos presídios da Grande Vitória.

Boa parte das armas se encontrava na Casa de Passagem de Vila Velha, para garantir a fuga em massa de presos. A fuga seria realizada através de uma lancha no manguezal da Serra da Mantegueira e por uma trilha que já estava pronta na mata que fica atrás do presídio – que anos mais tarde foi implodido.

No dia 12 de janeiro de 2007, a Sejus, com o apoio do Batalhão de Missões Especiais (BME) da Polícia Militar, realizou uma vistoria nas celas e demais dependências da Casa de Passagem e apreendeu em poder dos presos granadas, pistolas e revólveres.

De acordo com a investigação, os armamentos teriam entrado na cadeia com ajuda de alguns policiais militares e agentes penitenciários lotados no presídio, que teriam recebido entre R$ 6 mil e R$ 8 mil de propina.

Ainda de acordo com as investigações da Sejus, as equipes de revista que trabalhavam na época na Casa de Passagem estariam levando também para os presos martelos, chaves de fenda, lanternas, drogas e celulares. Cada celular, segundo a investigação, era vendido por até R$ 500,00.

A partir deste momento, a Sejus determinou o afastamento dos servidores lotados na cadeia e, desde então, os agentes responsáveis pela revista dos presos também são revistados antes de chegarem à cadeia.

As armas apreendidas na Casa de Passagem e as escondidas em poder de traficantes na Grande Vitória teriam vindo de São Paulo e Rio de Janeiro. Teriam sido entregues em morros da capital aos bandidos conhecidos como Nego Charles, Pio, B1 e Maurinho.

“A tática de queima de ônibus está abortada e os bandidos passaram a tentar executar autoridades do Estado que combatem a criminalidade de forma impetuosa e que tem ligação direta com as transferências de lideranças para outros Estados atrapalhando assim a movimentação e o lucro, o tráfico de drogas e armas no Estado e seu lucros”, diz um dos trechos de um documento da Sejus.

Tão logo a Sejus transferiu o pistoleiro Weter Alves Clímaco, o Jonh Wayne, para Catanduvas – no final de 2006, antes, portanto, de saber que ele seria o executor das ordens de Fernandinho Beira-Mar e Toninho Pavão –, o crime organizado já havia contratado outros matadores para assassinar um juiz, um promotor de Justiça e um alto funcionário do governo do Estado.

Segundo relatório da Sejus, Jonh Wayne já havia praticado assassinatos no Espírito Santo a mando de Toninho Pavão. Com sua transferência para o Paraná, a missão para executar as autoridades foi repassada para outro criminoso, identificado como Emerson Batista Antunes, o Erninho Negão, que na ocasião era foragido da unidade de saúde da Casa de Custódia de Viana.

A ida de uma equipe de Inteligência da Sejus à Penitenciária de Catanduvas foi mesmo importante e decisivo para a desarticulação dessa célula do crime organizado capixaba. Os agentes descobriram quem era a mulher que, ao visitar o marido na prisão paranaense, recebia os recados (ordens) e repassava aos criminosos no Espírito Santo. Trata-se da esposa do bandido conhecido como Major.

Fernandinho Beira-Mar se aliou a Toninho Pavão na prisão porque queria continuar expandindo seus negócios para o Espírito Santo. Em troca, teria que ajudar Toninho a pagar pistoleiros para matar autoridades capixabas.

As conversas entre os dois – que estavam na mesma ala em Catanduvas – foram monitoradas por agentes lotados no presídio e repassadas pelo diretor do presídio, o delegado federal aposentado Ronado Urbano, para o Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça, em Brasília.

Imediatamente, o Ministério da Justiça repassou as informações para a Sejus, Secretaria de Estado da Segurança e Defesa Social, Ministério Público Estadual e o Tribunal de Justiça.

Fernandinho Beira-Mar sempre agiu no Espírito Santo. Em 1996 ele foi preso em Vitória pela Polícia Federal e levado para Belo Horizonte. De lá, fugiu e só voltou à cadeia em 2001, quando foi capturado na Colômbia, onde vivia sob proteção dos guerrilheiros das Forças Revolucionárias Colombianas (Farcs).

Há 10 anos, ele se encontra em presídios de segurança máxima e, mesmo sem corromper servidores das prisões, consegue comandar o narcotráfico em grande parte do Brasil, segundo revela a revista Veja.

No Espírito Santo, Fernandinho Beira-Mar é dono de apartamento de luxo na Praia do Canto e de dois prédios residenciais em Guarapari.

O patrimônio do criminoso no Espírito Santo foi penhorado pela Justiça, mas até hoje não foi à leilão – o processo encontra-se em uma Vara Criminal de Belo Horizonte.

No Espírito Santo, Beira-Mar foi protagonista de uma história pitoresca que mexeu até com o mercado financeiro. Por causa dele, a Caixa Econômica Federal fechou sua agência no município de Alfredo Chaves, onde Fernandinho Beira-Mar possuía as 13 maiores contas bancárias, todas em nome de laranjas.

Ele conseguiu aliciar lavradores e comerciantes do município que emprestaram seus nomes para que o bandido movimentasse milhões de reais. Quando o esquema criminoso foi descoberto pela Polícia Federal, a Caixa fechou a agência por falta de clientes.

A gerente da agência da época chegou a prestar depoimento na extinta CPI Nacional do Narcotráfico, mas o resultado de seus depoimentos até hoje são desconhecidos, apesar de o presidente da CPI ter sido o senador capixaba Magno Malta – na época ele era deputado federal.

Como diz o novo chefe de Polícia Civil, delegado Joel Lyrio Júnior, numa referência ao crime organizado do Estado, “os animais estão feridos, mas não estão mortos”. Um recado para todas as instituições de poderes do Estado, que não podem cochilar quando o assunto é crime organizado.
 

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